[38] 3229.2000

Dom João Justino de Medeiros Silva

Arcebispo

 

SÃO INSEPARÁVEIS O AMOR A DEUS E O AMOR AO PRÓXIMO

 

O Evangelho nos apresenta a unidade entre o amor a Deus e o amor ao próximo. Esta conexão já estava assinalada nas Escrituras hebraicas. Esclarece-nos a cena relatada por São Lucas (10,25-37) em que um legista, com a intenção de experimentá-lo, perguntou a Jesus: “Mestre, que farei para herdar a vida eterna?” A resposta do Senhor se desdobrou em duas perguntas ao interlocutor: “Que está escrito na Lei? Como lês?” Jesus não somente remete à letra da Lei, mas apela à sua interpretação. O legista não poderia responder senão o que ele mesmo conhecia e ensinava: “Amarás o Senhor teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma, com toda a tua força e de todo o teu entendimento; e a teu próximo como a ti mesmo”. O comentário elogioso de Jesus é um apelo à prática da Lei: “Respondeste corretamente; faze isso e viverás”.

Não contente com a resposta de Jesus e querendo se justificar, o legista acrescenta outra indagação: “E quem é o meu próximo?” Jesus conta-lhe, então, a mais eloquente de todas as parábolas, aquela do bom samaritano. Um homem está ferido e caído no caminho, após ter sido assaltado, despojado e espancado. Está semimorto. Um sacerdote ao vê-lo, passa adiante. Também um levita faz o mesmo. Foi um samaritano que, vendo o homem semimorto, interrompe sua viagem, aproxima-se dele e cuida de suas feridas, com óleo e vinho. Em seguida, coloca-o sobre seu animal, o conduz à hospedaria e por ele se responsabiliza assumindo cuidados e custos. Aquele que colocara a Jesus a pergunta “E quem é o meu próximo?”, escuta o Senhor lhe perguntar: “Em tua opinião, qual dos três foi o próximo do homem que caiu nas mãos dos assaltantes?” Atenção à resposta do legista: “Aquele que usou de misericórdia para com ele”. Ao que Jesus completa: “Vai, e também tu, faze o mesmo”.

Nesta parábola estamos diante da formulação mais plena do ensinamento de Jesus Cristo acerca da intrínseca e indissolúvel relação entre o amor a Deus e o amor ao próximo. Nas palavras do Papa Bento XVI: “a parábola do bom samaritano permanece como critério de medida, impondo a universalidade do amor que se inclina para o necessitado encontrado ‘por acaso’ (cf. Lc 10,31), seja ele quem for” (Deus caritas est 25). Importante acentuação: “seja ele quem for”. Não pode haver limites quando se tratar de traduzir o amor a Deus em gestos de compaixão e cuidado com o irmão.


Na origem das Santas Casas está a compreensão da unidade do mandamento do amor a Deus e do amor ao próximo. Cada Santa Casa testemunha o histórico compromisso da comunidade católica com os enfermos e moribundos. Urge conhecer esta história para reconhecer a ousadia e o empenho heróico dos que nos precederam ativamente na compreensão de que “a Igreja também como comunidade deve praticar o amor. Consequência disso é que o amor tem necessidade também de organização como pressuposto para um serviço comunitário ordenado” (Bento XVI, Deus caritas est 20). A Santa Casa de Montes Claros, quase sesquicentenária, testemunha que são inseparáveis o amor a Deus e o amor ao próximo.

Dom João Justino de Medeiros Silva
Arcebispo de Montes Claros

 

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